
A produção de cafés especiais em Mato Grosso começa a mudar de patamar com uma pesquisa inédita conduzida pela Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer) em parceria com a Embrapa Rondônia e com a Secretaria de Estado de Agricultura Familiar de Mato Grosso (Seaf) que, pela primeira vez, identifica quais variedades de robusta amazônico realmente funcionam no estado. O estudo, iniciado em 2021, está abrindo caminho para que agricultores familiares e comunidades indígenas ampliem renda e qualidade de vida.
“O agricultor pode experimentar uma muda por conta própria. O Estado, não. O Estado precisa oferecer segurança técnica”, explica a pesquisadora Danielle Müller, agrônoma e doutora em Agricultura Tropical pela Universidade de Mato Grosso (UFMT). “É a primeira vez que Mato Grosso tem um banco de dados sólido sobre produtividade, qualidade de bebida e adaptação regional”.
A pesquisa, que integra o Programa MT Produtivo Café (lançado em 2019), surge no momento em que pequenos produtores já voltaram a olhar para o café como alternativa econômica no estado. A falta de validação científica, porém, dificultava a expansão da cultura. “Por muitos anos, as pessoas plantaram café em Mato Grosso no empirismo: funcionava em algumas áreas, fracassava em outras, e ninguém sabia exatamente por quê”, diz Danielle.
“Encontramos materiais capazes de unir alta produtividade e bebida fina, acima de 80 pontos. Isso muda tudo para o produtor”, afirma a pesquisadora Dalilhia Santos, engenheira agrônoma e doutora em Fitotecnia pela University of Florida. Ela lembra que a cafeicultura brasileira sempre concentrou prestígio no arábica, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste. “Eu mesma, que venho do Sul de Minas, tinha resistência inicial. Mas o robusta amazônico tem identidade, tem complexidade. É um outro café, então é como comparar vinho tinto com vinho branco”.
Com os resultados consolidados, a Empaer prepara a expansão para novas regiões e planeja, para 2026, a primeira Rota do Café de Mato Grosso, com treinamentos, capacitações e um concurso estadual de cafés robustas de qualidade, prática consolidada em Rondônia e que começa a ganhar força no Centro-Oeste.
A potência da ciência pública

Para o presidente da Empaer, Suelme Fernandes, projeto do robusta amazônico simboliza um novo papel da empresa na agenda de inovação do Estado. “Esse trabalho mostra a força da ciência pública. A Empaer testa, valida e leva para o produtor aquilo que realmente funciona. Quando a pesquisa chega na ponta, ela muda vidas”, afirma.
Suelme defende que a pesquisa não é apenas um estudo científico, mas um instrumento de inclusão socioeconômica. “A gente fala em assistência técnica, mas o que estamos entregando é autonomia. É permitir que o produtor, seja ele familiar, tradicional ou indígena, tome decisões com base em dados, e não em tentativa e erro”.
O presidente destaca ainda que a parceria com a Embrapa é o eixo central do avanço. Como explica Fernandes, a Embrapa entra com o melhoramento genético e Empaer coloca esses materiais à prova em Mato Grosso.
Segundo ele, o Estado vive um momento de reorganização da assistência rural. “O desafio é garantir que a inovação chegue onde antes não chegava. Se o café hoje está dentro de uma aldeia indígena com qualidade reconhecida internacionalmente, é porque a pesquisa pública está funcionando”.
O café que fortalece a aldeia Massepô
Um dos efeitos mais marcantes da pesquisa aparece na aldeia Massepô, do povo Balatiponé-Umutina, em Barra do Bugres. Ali, a ciência encontrou uma tradição adormecida, e ajudou a moldar um novo projeto de futuro. O cacique Felisberto Cupudunepá transformou a retomada territorial em uma estratégia de autonomia econômica. “Meu avô e meu pai plantavam café. A gente só retomou uma história que já existia, mas agora com conhecimento técnico”, afirma.
Com apoio da Empaer e da Embrapa, a comunidade passou a cultivar robusta amazônico, beneficiou o próprio grão e criou um café indígena, de alta qualidade, que já chegou a países como Portugal, Itália, Espanha, Alemanha e, mais recentemente, Japão. Hoje são dois hectares, que passarão a cinco nos próximos meses e devem chegar a 15 hectares em quatro anos.
“Nosso café é especial. Queremos produzir com qualidade, do plantio ao beneficiamento”, diz o cacique. Para ele, o mais importante é que a cadeia inteira se mantém dentro da aldeia, o que gera renda e acaba trazendo jovens de volta ao território.
Para Suelme, essa história sintetiza a importância do projeto. “Quando a ciência pública permite que uma comunidade indígena produza um café especial que chega ao exterior, isso não é só agricultura. É desenvolvimento. É cidadania”.
A equipe de pesquisadoras afirma que, pela primeira vez, Mato Grosso terá um catálogo oficial de materiais recomendados para diferentes regiões, algo que estados produtores já consolidaram há décadas. Para Dalilhia Santos o momento é importante para a história da produção no estado. “Estamos colocando Mato Grosso no mapa do café com responsabilidade técnica. O produtor merece isso: informação clara, segura e adaptada à realidade dele”.

