Projeto no Pantanal transforma flora em tintas e inspira reeducação ambiental

Artista usa pigmentos naturais para produzir aquarelas e ensinar crianças e adultos a enxergarem valor na flora pantaneira.

Projeto no Pantanal transforma flora em tintas e inspira reeducação ambiental
Projeto no Pantanal transforma flora em tintas e inspira reeducação ambiental (Foto: Arquivo Pessoal / Montagem: Rede Sucuri)

No quintal de casa, em Cáceres (a 218 km de Cuiabá), Ana Paula Piveta transforma o que muitos chamariam de “mato” em arte. Com folhas, flores e raízes, ela extrai pigmentos naturais que dão origem às suas aquarelas botânicas: tintas produzidas a partir da flora pantaneira. O trabalho artesanal, que começou durante a pandemia, levou a artista a integrar o Inova Biomas – edição Pantanal, programa do Sebrae que estimula negócios sustentáveis da bioeconomia em biomas brasileiros.

Para Ana Paula Piveta, o Pantanal é sua maior inspiração (Foto: Arquivo Pessoal)

Bacharel em Ciências Contábeis, Ana Paula descobriu nas cores da natureza uma nova forma de expressão e também um projeto de vida. “Eu quero mostrar que é muito fácil e orgânico começar a observar o que está ao nosso redor. Os nossos quintais são espaços afetivos e cheios de possibilidades”, diz. Mais do seu trabalho pode ser conferido em seu perfil no Instagram, @ana.paulapiveta.

A curiosidade de transformar plantas em pigmentos surgiu em 2020, quando ela participou do primeiro edital cultural da Lei Aldir Blanc. O projeto pedia propostas relacionadas à cultura do Pantanal, e Ana decidiu olhar para o bioma além dos símbolos mais conhecidos, como a onça, o tuiuiú, o jacaré. “Eu pensei: e a flora? E as plantas, que são a base de tudo?”, conta. Desde então, passou a estudar tingimentos naturais e técnicas de aquarela feitas com extratos vegetais.

Com apoio de editais de incentivo, Ana Paula tem realizado oficinas sobre aquarela botânica com crianças (Foto: Arquivo Pessoal)

Com o apoio de editais e programas como o Inova Biomas, ela estruturou oficinas em que ensina crianças e adultos a produzir suas próprias tintas a partir de plantas locais, como o pau-brasil, a romã e até espécies que crescem espontaneamente nos quintais. “As crianças se encantam quando percebem que podem mudar o pH de uma cor usando limão ou bicarbonato. Eu levo um verdadeiro laboratório para elas”, explica.

Mais do que arte, Ana Paula vê nas oficinas uma oportunidade de reeducação ambiental. “A descoberta encanta as crianças, mas transforma mesmo os adultos. É um processo de reaprendizado sobre o que é natureza e sobre o que é valor”, afirma.

Além de despertar o olhar para a flora local, Ana Paula também transforma suas oficinas em aulas de história e cultura. Ela conta às crianças e aos adultos a trajetória de plantas como o pau-brasil, que dá origem a um pigmento nobre e remete ao período colonial, quando apenas a elite tinha acesso a tecidos tingidos com sua cor. “Quando a gente pinta com o pau-brasil, está recontando um pedacinho da história”, diz. Em cada oficina, a artista também apresenta nomes indígenas das espécies e seus significados, como forma de conectar saberes tradicionais e memória coletiva.

A artista conta que a aquarela botânica encanta as crianças, mas tem um poder transformador sobre adultos. (Foto: Arquivo Pessoal)

À Rede Sucuri, a artista contou que considera o Pantanal sua principal fonte de inspiração. Leitora de Manoel de Barros, diz se identificar com a forma como o poeta olhava para as “insignificâncias” da paisagem pantaneira. “Ele escrevia sobre o chão, sobre a borra, sobre aquilo que a gente não valoriza. O Pantanal é isso: uma fonte inesgotável de vida e possibilidades. Eu só revisito esse espaço e convido as pessoas a redescobrirem junto comigo”.

Sobre o Inova Biomas

O Inova Biomas, na edição Pantanal é uma iniciativa do Sebrae voltada a impulsionar empreendedores da bioeconomia na região. O programa oferece apoio técnico, capacitação e recursos financeiros para o desenvolvimento de produtos e processos sustentáveis que gerem impacto positivo para o meio ambiente e para as comunidades locais. Em Mato Grosso, a edição reúne projetos que vão da gastronomia com ingredientes nativos ao uso de tecnologias sociais inspiradas nos saberes tradicionais pantaneiros.

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