
Por trás da água que chega à torneira ou do peixe servido no prato, há uma cadeia de impactos que começa muito antes, nas nascentes e no modo como o território é ocupado. Professores e pesquisadores alertam que rios de Mato Grosso estão mudando de cor, secando e até acumulando substâncias tóxicas, em um processo que pode comprometer o abastecimento e a vida de comunidades inteiras se o planejamento do estado continuar ignorando as bacias hidrográficas.

“A gente tem rios como o Teles Pires, que era classificado como águas claras, e hoje é barrento. As praias não estão mais lindas e maravilhosas”, disse a bióloga Solange Arrolho, professora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). “A bacia hidrográfica não é só o território. Ela tem um fluxo ecológico, com fauna, flora e o ser humano”.
Ela explica que pesquisas realizadas ao longo de 12 anos em 254 pontos identificaram alterações relevantes nas bacias. Um dos exemplos mais preocupantes é o aumento de mercúrio em peixes após a instalação de barragens. “Nós provamos que, com o aumento do número de barragens, aumenta o mercúrio em peixes, que é a principal fonte de proteína para muitas pessoas”, afirmou.
O alerta foi feito durante o Seminário Bacias Hidrográficas e Ordenamento Territorial, realizado nesta quarta-feira (25.02) na Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá. O evento reuniu pesquisadores, gestores públicos e representantes da sociedade civil em meio à revisão do Zoneamento Socioeconômico e Ecológico (ZSEE) de Mato Grosso, documento que define como o território pode ser utilizado.
Água ignorada no planejamento
A professora criticara o fato de o zoneamento, que orienta o uso da terra no estado, dar pouca atenção às bacias hidrográficas, consideradas a unidade mais adequada para planejar o território. Arrolho analisou os documentos do zoneamento e encontrou poucas referências diretas às bacias.
“No caderno da metodologia, em mais de 80 páginas, a palavra ‘bacias hidrográficas’ aparece quatro vezes. No estudo econômico, não aparece nada. Como você faz um zoneamento sem integrar ambiente, social e economia?”.

Ela afirma que isso impede uma visão completa dos impactos. “Sem conservar água, não tem nada”, disse. A pesquisadora também destacou que as decisões sobre o uso da água afetam diretamente populações tradicionais. “As populações indígenas, os quilombolas, os ribeirinhos estão sendo engolidos. Muitas vezes são cooptados por discursos de que a água é só para irrigação e produção, mas a água é muito mais que isso.”
Rios fragmentados e até secos
A bióloga Solange Kimie Ikeda, também professora da Unemat, afirmou que tratar a água e o território separadamente é um erro que compromete o futuro ambiental e econômico do estado. “Zoneamento está na política de meio ambiente, e bacias hidrográficas estão na política de recursos hídricos. Só que são políticas separadas, no mesmo território. Nós temos que integrar”, disse.
Ela relatou o caso do rio Jauru, no sudoeste de Mato Grosso, onde a construção de hidrelétricas alterou drasticamente o curso d’água. “O rio Jauru, num dia de falha da usina, secou. A comunidade falou: ‘O rio nunca mais voltou a ser o mesmo’.” Segundo ela, barragens fragmentam os rios e afetam a pesca, a renda e a cultura local. “Onde era fundo ficou raso. Quando está bom para pescar, soltam água e o peixe desaparece.”
Outro problema é o assoreamento, quando sedimentos tomam conta do leito dos rios. “Toda essa areia está vindo para o rio Paraguai e para o Pantanal. Isso pode levar ao soterramento das nascentes”, disse.
Impactos chegam à torneira
As mudanças nas bacias hidrográficas afetam diretamente o abastecimento de água nas cidades, segundo as pesquisadoras. Isso porque a água que chega às torneiras depende da integridade dessas áreas. Quando há desmatamento, barragens ou uso inadequado do solo, o fluxo natural é alterado.
“Como garantir a segurança hídrica das populações se a gente não pensa a bacia como um todo?”, questionou Arrolho. Ela afirma que o próprio processo de ocupação do estado seguiu o caminho das águas, o que torna ainda mais necessário considerar esse fator no planejamento. “Você tira a vegetação, usa o solo, e depois fica sem água.”
Ikeda destacou que o Pantanal, maior área úmida do mundo, depende diretamente do que acontece nas áreas mais altas das bacias. “O Pantanal depende totalmente dessa conectividade. Tudo o que acontece no planalto vai refletir na planície”. A pesquisadora alerta que projetos como hidrelétricas e hidrovias podem causar danos irreversíveis. “Se a gente não considerar a bacia hidrográfica, a gente destrói o território.”
Mobilização e decisão política

As professoras defenderam que o conhecimento científico precisa ser incorporado às políticas públicas e às decisões sobre o território. “O zoneamento é uma política pública bonita no papel, mas virou quase um filme de terror, porque não foi implementado como deveria”, disse Ikeda. Para ela, o futuro depende de decisões tomadas agora.
“Ter esperança não adianta. A gente tem que arregaçar as mangas. Sem conservar a água, não tem futuro”. O seminário discutiu justamente o uso das bacias hidrográficas como base para o planejamento territorial de Mato Grosso. As discussões, na íntegra, podem ser conferidas no canal no Youtube do Instituto Centro de Vida (ICV).

