Agro é tech, agro é pop, agro é… recuperação judicial e ecocídio

Preparem os lenços: a “tempestade perfeita” tão negada pelos gurus do agronegócio finalmente desabou, só que, em vez de chuva, veio enxurrada de processos na Justiça. Em 2025, o campo brasileiro bateu um recorde histórico, daqueles de emoldurar na parede do sindicato rural: 1.990 pedidos de recuperação judicial, segundo a Serasa Experian. Um salto singelo de 56,4% em relação ao ano anterior. E pensar que, enquanto as planilhas quebram, as colheitadeiras seguem tirando safras monumentais da terra. É o paradoxo do agro pop: a produtividade física é recorde, mas a liquidez virou pó, culpa, claro, do governo federal, esse bode expiatório de estimação que dispensa qualquer autocrítica gerencial.

Porque, convenhamos, a expansão dos grupos agrícolas foi planejada com a régua e o compasso da euforia. Os preços das commodities explodiram na pandemia e no início da guerra da Ucrânia, e um monte de gente achou que a festa na Bolsa de Chicago seria eterna. Fizeram investimentos suntuosos contando com um fluxo de caixa que, de repente, se recusou a aparecer no balanço. A ficha caiu, ou melhor, não caiu, foi soterrada por ciclos de seca arrasadora no Centro-Oeste e enchentes bíblicas no Sul. E ainda tem produtor rural que nega as mudanças climáticas; é tanta teimosia que daria para fazer uma estátua no jardim da ignorância.

Mato Grosso é o prontuário mais explícito dessa falência climática. Em 50 anos, o estado conseguiu a proeza de converter o maior estoque de baixa entropia do Centro-Oeste em alta entropia, e cobrou por isso em sacas de grãos e arrobas de boi. Traduzindo a economia: ela não gera riqueza, ela a dissipa com esmero. Transforma ordem em caos, floresta em calor, rio limpo em barro, solo vivo em deserto. O nome técnico é ecocídio, e Mato Grosso disputa o pódio nacional com folga. Em meio século, perdeu 40% da vegetação nativa. O Pantanal secou 29%. Rios que alimentam a Bacia Amazônica, Juruena, Teles Pires e Aripuanã, viraram balcão de garimpo temperado com mercúrio. A Fiocruz, sem muito esforço, achou nove vezes mais mercúrio no sangue indígena do que o limite seguro. Detalhe: 90% do ouro mato-grossense é extraído na ilegalidade. Um primor de governança.

E agora o cliente avisa que vai embora. A China compra 70% da soja, 35% do algodão e é o principal destino da carne do estado. Mas o novo plano quinquenal chinês já mandou o recado: a segurança alimentar virou soberania alimentar, e eles vão cortar 40% da importação de grãos e proteína animal em cinco anos. Vão plantar em casa e recompor os estoques internos, enquanto aqui a poupança local em forma de ativo florestal já virou fumaça. Quando a demanda chinesa despencar, o preço desaba junto. Não haverá Fethab que segure. O rombo fiscal descortinará o rombo ecológico, e então prefeituras, fazendas e frigoríficos vão quebrar num efeito dominó didático, daqueles que só a realidade consegue ministrar.

No Pantanal, a situação tem sabor de crônica de uma morte anunciada. Dados do Ministério da Agricultura mostram que 90% das fazendas são de gestão familiar, mas menos de 30% chegam à terceira geração. A sucessão é frágil porque repousa num tripé de vulnerabilidades que mais parece enredo de novela trágica: 82% dos grandes e médios proprietários não têm testamento nem protocolo de transição (embora estejam convictos de que “os filhos vão continuar”); conflitos latentes por terra, poder e afeto explodem na ausência de governança; o ciclo pecuário extensivo imobiliza capital em pasto, cerca e boi, tornando a saída dos herdeiros um trauma financeiro. Soma-se a isso o êxodo juvenil, a falta de renda previsível e de um propósito profissional “contemporâneo” que expulsa os jovens para os centros urbanos, e a resistência renitente à profissionalização. Ainda ecoa nas rodas de tereré e guaraná ralado a crença inabalável de que “gestão familiar não precisa de conselho administrativo, auditoria ou diretor financeiro”. Afinal, para que profissionalizar se dá para culpar o clima e o governo?

O curioso é que aquilo que a pecuária pura não conseguiu entregar, o turismo de observação de vida selvagem está demonstrando com números robustos. Avistamento controlado de onça-pintada, safáris fotográficos para contemplar o complexo de aves: fazendas como San Francisco, Caiman e Barranco Alto no Mato Grosso do Sul estão provando que é possível gerar caixa, conservar o bioma e manter a família no território. O turismo sustentável não substitui a pecuária; ele a diversifica com inteligência. A mesma vaca pantaneira que pasta em campo nativo convive com o safári fotográfico. Resultado: o patrimônio líquido da família não fica refém exclusivo da cotação da arroba do boi. E o mais importante, o filho que aprendeu a identificar aves e a falar inglês com os hóspedes se enxerga como protagonista, não como um herdeiro à espera da partilha.

PIB não mata sede, literalmente. É urgente criar um “PIB Verde” para que Mato Grosso pare de tratar água, carbono no solo e biodiversidade como externalidades irrelevantes. A proposta concreta está na mesa: usar 25% do Fethab (algo como R$ 750 milhões por ano) para recuperação ambiental, zerar desmatamento e garimpo ilegal, restaurar 30 milhões de hectares de pastagens degradadas com Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (floresta nativa, diga-se). O estado precisa pagar o produtor por água limpa e por arroba produzida em sistemas regenerativos, banindo de vez o algodão e o boi das áreas de recarga dos aquíferos. Não se trata de romantismo ecológico, é aritmética básica de sobrevivência.

A dependência de commodities precisa ceder espaço à bioeconomia. Hoje ela representa míseros 3% do PIB estadual; a meta é chegar no mínimo a 15%, com fármacos do Cerrado, proteína de precisão, pecuária regenerativa, turismo, ecoturismo é um mercado de crédito de carbono que não seja jogral de marketing. Tradução: ganhar mais torrando menos o planeta.

O que acontece em Mato Grosso define se o Brasil terá um projeto de potência ambiental ou um atestado de deserto. A crise climática não se resolve com cada país incinerando seu quintal. Ou avançamos para uma cooperação que reduza a destruição, ou vamos travar guerras por água e solo. Mato Grosso é o grande teste. Ou seria o campo de batalha? O Brasil escolhe agora se aprende com os erros desse estado ou se converte num Mato Grosso continental, um lugar onde, no final, a única coisa que se multiplica com eficiência são as dívidas e os desertos.

Saudações Ambientais,

Aynore Soares Caldas é agrônomo, mestre em manejo de vida selvagem, técnico em turismo, guia de turismo, pantaneiro, bacharel em direito e empresário do ecoturismo em Mato Grosso.

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