
Cuiabá, coitada, arrancou um Selo Bronze do Connected Smart Cities, um bronze que mais parece prêmio de consolação para quem ainda engatinha na inovação. Porque de inteligente a cidade tem pouco. Faltam integração, continuidade e vontade política que sobreviva a uma eleição. Os gargalos são tão cômicos quanto crônicos:
– Integração setorial? A conversa entre saúde, segurança e transporte ainda é analógica, movida a ofício e “depois a gente vê”. Dados em tempo real, na capital do agronejo, são artigos de luxo.
– Mobilidade urbana? As eternas obras da Copa de 2014 seguem como monumento à ineficiência. Doze anos depois, o trânsito continua um caos, e nem o “grande” gestor, o ex-imperador de Mato Grosso, conseguiu domar essa jamanta. Quem nunca andou de VLT imaginário aplaudindo o asfalto remendado da Copa? Enquanto isso o cidadão, segue refém de crateras e semáforos com síndrome de pisca-pisca.
– Sustentabilidade e meio ambiente? Arborização é artigo raro, matriz energética eficiente tira zero nos rankings especializados. Cuiabá é forno, mas de energia limpa tem pouco, deve achar que painel solar é enfeite de telhado.
– Planejamento de longo prazo? Só se for o prazo até a próxima eleição. Planos diretores viram papel molhado a cada mudança de prefeito ou governador. Inovação contínua morre na praia dos ciclos políticos, onde o que importa é a placa da inauguração, não o serviço.
Esse desastre reflete, claro, na imagem de Mato Grosso como destino turístico, um estado com o Pantanal, Amazônia e o Cerrado no quintal, mas que trata o turismo como parente pobre. O potencial ecológico é estratosférico; o que o derruba são os mesmos vícios:
-Malha aérea limitada e passagens a preço de ouro. Muitas vezes, o turista gasta mais para chegar a Cuiabá do que para cruzar o Atlântico. Conectividade é um favor, não um serviço.
– Logística interna digna de expedição. Rodovias sem pavimentação, sinalização turística que mais confunde do que orienta, e quilômetros de chão que mais castigam do que encantam.
– Preços abusivos e “padrão Dubai”. Em certos pólos, cobra‑se pelo simples como se fosse experiência exclusiva. Turismo doméstico e regional fogem para não deixar o rim no almoço.
– Sazonalidade e extremos climáticos.Cheia, seca, queimadas, calor de rachar, e o estado, sem estratégia de mitigação, assiste ao fluxo turístico derreter, enquanto gestores públicos e empresários se queimam mutuamente em busca de um culpado.
– Articulação e promoção de mercado. Falta sinergia de verdade entre poder público e trade. Sobram informalidade, mão de obra despreparada e lampejos de marketing que não seguram um voo direto internacional. O ecoturismo de alto padrão exige capacitação, e aqui qualificação ainda é artigo de discurso de campanha.
Enquanto isso, o Parque Novo Mato Grosso já se inscreveu no Guinness da metamorfose orçamentária: de R$ 150 milhões a R$ 1,5 bilhão, provando que, em terras mato‑grossenses, a inflação de obras públicas tem fórmula própria, e nenhum controle. A política estadual de turismo e diálogo social, ao menos, exibe uma coerência impecável: a de tratar dinheiro público como se fosse infinito. O Parque pode até virar cartão‑postal um dia. Por ora, coleciona reajustes, aditivos e questionamentos. Duvido, sinceramente, que o valor despejado na construção e nos eventos já realizados retorne em benefício proporcional ao estado ou aos empresários do trade que, na visita técnica de 08/07/2026, protagonizaram uma comovente sessão de lambeção de botas aos coronéis da política local. Governar é escolher: cada real torrado em obra faraônica e inútil é um real que falta no hospital, na qualificação profissional do jovem, na estrutura que faria o turismo andar.
Já o vizinho Mato Grosso do Sul resolveu fazer o dever de casa. Campo Grande lidera como a cidade mais inteligente e conectada do Centro‑Oeste no Ranking Connected Smart Cities. Lá, quase 99% de cobertura 5G, fibra óptica robusta, Wi‑Fi gratuito em áreas públicas. Saúde digitalizada com agendamento online e prontuário eletrônico. Parque tecnológico, sete incubadoras e startups brotando. Centro de Controle Operacional, semáforos inteligentes, bilhetagem eletrônica, monitoramento de risco ambiental. Desburocratização que digitaliza matrícula, atendimento e reduz papel. Isso tudo, vejam só, impacta positivamente também o turismo, porque o turista gosta de cidade que funciona.
No turismo, o MS fincou bandeira com gestão sustentável e planejamento de Estado, não de governo. O voucher único de Bonito e Serra da Bodoquena controla capacidade de carga, evita o turismo de massa e garante previsibilidade financeira. Metas de carbono neutro, conservação e foco em experiências de alto valor agregado, observação de aves e vida selvagem para um mercado internacional disposto a pagar por autenticidade. Parcerias sólidas entre Fundtur e iniciativa privada, inteligência de mercado, promoção internacional contínua e logística integrada descentralizaram o fluxo, conectando Pantanal, Serra da Bodoquena e turismo de negócios com competência. Até o ar-condicionado da burocracia por lá parece gelar mais.
A diferença não é clima, nem bioma. É projeto. Enquanto Mato Grosso coleciona placas e reajustes, Mato Grosso do Sul coleciona resultados e turistas.
Para quem discorda, seja o ex-imperador de Mato Grosso, seu herdeiro político o Duque, os secretários e ex‑secretários, ou os membros do trade que trocam críticas por afago, fica o desafio: debater em público. Escolham local, horário e mediador. De minha parte, estarei com os números, os fatos e a língua afiada de quem não deve subserviência a coronel! Quem sabe assim a inteligência, ainda que tarde, dê as caras em terras mato-grossenses!
Saudações Ambientais,
Aynore Soares Caldas
Técnico em Turismo, Guia de Turismo, Agrônomo, Mestre em Manejo de Vida Selvagem, Bacharel em Direito, Empresário do Ecoturismo em Mato Grosso e Pantaneiro.

