
A transformação de pesquisas acadêmicas em patentes e negócios ainda é um processo em construção na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Entre registros no Instituto Nacional da Propriedade Industrial e o estímulo ao empreendedorismo, a instituição tenta encurtar a distância entre o laboratório e o mercado.
À frente desse processo está o Escritório de Inovação Tecnológica (EIT). “O conhecimento é um ativo que pode ir para o mercado e melhorar a vida de muita gente”, afirma a professora Ivana Aparecida Ferrer Silva, diretora da unidade.
O primeiro passo, segundo ela, é garantir a proteção das ideias que surgem dentro da universidade. Trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses e pesquisas docentes com potencial de aplicação prática passam pelo núcleo, que faz o registro ou o depósito de patente.
Patentes no laboratório

Até 2025, a UFMT acumulava 73 depósitos de patentes. Havia 55 pedidos vigentes, sendo 42 de invenção e 13 de modelos de utilidade, além de 13 patentes já concedidas. As tecnologias se distribuem por 16 setores industriais, com destaque para fármacos (18%), fitoterápicos (17%) e áreas de medição e controle (11%).
Entre os exemplos estão soluções ainda em estágio intermediário de desenvolvimento, como um composto do veneno do sapo Rhinella marina com potencial antimalárico e formulações à base de extratos vegetais voltadas ao tratamento de doenças inflamatórias intestinais. Em geral, essas tecnologias estão no nível 4 de maturidade (TRL), o que indica validação em ambiente de laboratório.
Empreendedorismo depende da iniciativa do aluno
Além da proteção intelectual, o EIT atua em um segundo eixo: estimular o empreendedorismo dentro da universidade. A UFMT tem ao menos 20 disciplinas ligadas ao tema, distribuídas em diferentes cursos, e promove jornadas de pré-incubação para ajudar a transformar ideias em modelos de negócio.
Nessas trilhas, equipes desenvolvem projetos ao longo de módulos que abordam desde a modelagem até análise de mercado. “A gente oferece as trilhas, as palestras, mas o aluno precisa vir. Se ele não tiver essa iniciativa, não acontece”, afirma Silva.
Como forma de apoiar os projetos acadêmicos, o EIT também inaugurou em fevereiro desse no o ‘Espaço Criativo Toró de Ideias’. Idealizado pelo professor Maurício, do curso de Arquitetura, a sala é destinada a atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e gestão acadêmica. Além disso, iniciativas selecionadas em editais também podem usufruir de ilhas de trabalho no prédio da unidade.
Estrutura oferecida pelo EIT para atividades de pesquisa e extensão (Fotos: Rede Sucuri)
A limitação estrutural pesa. O núcleo conta com quatro servidores e ainda não tem orçamento próprio. “Diante de tudo o que a gente faz, não conseguimos abraçar todas as ideias”, diz. Ainda assim, a universidade tenta ampliar parcerias externas para suprir lacunas e conectar estudantes a programas nacionais e internacionais de inovação.
Um dos casos mais conhecidos é o da marca Natureza Raiz, criada pela engenheira química Cecília Viveiros. A empresa surgiu a partir de um problema pessoal investigado durante a graduação e foi estruturada com base em conhecimento adquirido na universidade, história já contada pela Rede Sucuri.
A marca desenvolve cosméticos com insumos da bioeconomia e hoje busca expansão internacional, mostrando um caminho possível, ainda que não institucionalizado, entre pesquisa e mercado.
Segundo Silva, esse tipo de trajetória costuma seguir um padrão: o conhecimento técnico é adquirido na universidade, mas o produto final evolui fora dela. “Ela desenvolveu o know-how aqui e, com isso, viabilizou a linha de produtos”, afirma, ao citar o caso.
Outros exemplos surgem em áreas como cosméticos naturais e alimentos. É o caso de egressas que criaram marcas artesanais ou produtos como derivados de tapioca, muitas vezes impulsionados por experiências em sala de aula.
Há também iniciativas mais estruturadas, como a startup “Vô Contigo”, criada por Ivonete Guarino, ex-aluna de Ciências Contábeis durante a pandemia. A plataforma conecta idosos a serviços de acompanhamento para atividades cotidianas e de saúde, em um modelo semelhante a aplicativos de transporte.
Barreiras vão da estrutura à legislação
Para professores, o caminho até o empreendedorismo é mais complexo. A carreira acadêmica é historicamente voltada à produção e difusão de conhecimento, não à exploração comercial. “Ele foi ensinado a publicar, não a negociar a invenção”, diz Silva. Além disso, o regime de dedicação exclusiva limita a atuação direta em empresas.
Mudanças recentes no marco legal da inovação têm buscado flexibilizar esse cenário, permitindo a criação de startups e spin-offs vinculadas a pesquisas acadêmicas, ainda que com restrições.
Conheça três patentes já concedidas à UFMT:

